Bactéria resistente a um dos antibióticos mais fortes é achada no Brasil: o que pode ocorrer?

Uma bactéria ultrarresistente, capaz de sobreviver a um dos mais fortes antibióticos existentes, foi detectada pela primeira vez no Brasil. A descoberta emite um alerta para o perigo da crescente resistência dos micro-organismos aos medicamentos, que pode levar a humanidade de volta à era pré-antibióticos, quando doenças simples, como uma infecção intestinal, eram capazes de matar.

Bactéria resistente descoberta no Brasil

Cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e do Hospital de Guarnição de Natal (Rio Grande do Norte) detectaram uma versão resistente da bactéria Escherichia coli em um paciente com pé diabético, complicação do diabetes que causa feridas nos pés, hospitalizado na cidade de Nata

A bactéria já foi identificada em países como China e Estados Unidos e os pesquisadores já analisam o alastramento da bactéria pelo Brasil há alguns anos, mas essa foi a primeira vez em que ela foi identificada em seres humanos no país.

Há suspeitas de que o uso de antibióticos em animais para corte – processo relacionado ao aumento da resistência aos antibióticos – seja a origem da chegada da bactéria aos humanos.

Por que ela é tão resistente?

O que torna a bactéria resistente é a presença do gene mcr-1 em seu DNA. É essa característica genética que faz a bactéria ser imune à colistina (polimixina E), um dos antibióticos mais fortes que existem atualmente.

Esse medicamento foi descoberto em meados do século XX, mas deixou de ser usado em função de sua toxicidade. No entanto, com o aumento da resistência aos antibióticos no início do século XXI, ele voltou a ser uma opção. Não se acreditava que poderia surgir resistência até a identificação do gene mcr-1.

Outra descoberta é que o gene pode ser transferido com facilidade para outros tipos de bactéria através de conjugação, um processo em que fragmentos de DNA passam de uma bactéria para outra.

O que ela pode causar

A Escherichia coli é uma bactéria que está normalmente presente no intestino humano e de animais. No entanto, em situações especiais, ela pode migrar para outras partes do corpo – causando, por exemplo, infecções urinárias e até meningite – ou ser adquirida através de alimentos contaminados, situação em que está relacionada a infecções intestinais.

A E. coli pode ser eliminada com mais facilidade atualmente, pois há antibióticos capazes de matá-la. Mas caso sua versão resistente se espalhe, o manejo das doenças por ela causada será bem mais difícil.

A principal preocupação está na combinação do gene mcr-1 com outros marcadores genéticos que determinam a resistência a outros antibióticos, cenário em que a bactéria não poderia ser eliminada por nenhum tratamento antibiótico existente atualmente.

Segundo Marcos Antonio Cyrillo, integrante do Comitê de Resistência Antimicrobiana da Sociedade Brasileira de Infectologia, se não agirmos em relação a isso, iremos regredir à “era pré-antibióticos”, pois as medicações existentes não irão mais fazer efeito.

Vale lembrar que a E. coli não é a única bactéria que pode conter o mcr-1. Em entrevista à revista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, os pesquisadores disseram que o gene já foi identificado em outras bactérias, como Salmonella e Klebsiella pneumoniae. Em um futuro próximo, ela poderá estar em muitas outras.

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