Família morta no RJ: o fracasso profissional pode destruir o emocional de alguém?

Família foi encontrada morta em condomínio, na Barra de Tijuca, no Rio de Janeiro, e as suspeitas do caso indicam que Nabor Coutinho de Oliveira Júnior, de 43 anos, tenha matado a mulher, Lais Khouri, de 48 anos, a facadas, e jogado pela janela os dois filhos, Henrique e Arthur, de 10 e 7, respectivamente. Ele teria se suicidado em seguida.

Uma carta encontrada pela polícia no local sugere crime por problemas profissionais sofridos por Oliveira, formado em engenharia de software pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), mas atuante na área de desenvolvimento de negócios.

“Me preocupa muito deixar minha família na mão. Sempre coloquei eles à frente de tudo ante essa decisão arriscada para ganhar mais. Mas está claro para mim que está insustentável e não vou conseguir levar adiante. Não vai ter mais renda e não vou ter como sustentar a família. Sinto um desgosto profundo por ter falhado com tanta força, por deixar todos na mão. Mas, melhor acabar com tudo isso logo e evitar o sofrimento de todos”, diz a carta encontrada pela polícia, no apartamento da família.

Segundo o delegado Fábio Cardoso, chefe da Divisão de Homicídios da capital carioca, a carta, que foi escrita em forma de tópicos, aponta questões que ele devia estar vivendo no novo emprego e também o receio de não ter dinheiro para pagar o convênio médico da mulher, com esclerose múltipla. Parentes confirmaram que ele estava insatisfeito, em entrevista para a TV Globo.

Medo de perder o emprego

Aparentemente, Oliveira não passava por problemas financeiros, não possuía dívidas.Trabalhou como gerente de marketing na empresa de telefonia TIM durante 18 anos, onde ganhava cerca de R$ 20 mil. Tinha pedido demissão em julho, mas já estava empregado novamente. Ele integrava a equipe da nova empresa há apenas seis semanas, como consultor da empresa estrangeira, recém-chegada no país, a Datami, onde recebia o dobro.

A assessoria da TIM disse que Oliveira alegou sair para se dedicar a um novo desafio. O CEO da empresa atual, Harjot Saluja, lamentou o fato e disse que todos gostaram de conhecê-lo e de trabalhar com ele. Ainda assim, a carta revela que Oliveira estava com receios no novo emprego. “Passei a ser menos envolvido ou copiado nos e-mails de projetos que estão rolando. Pode ser cisma minha, mas parece já um sinal de que não me querem mais lá. Esse contrato que assinei com eles é completamente desproporcional. E da forma como tudo ocorreu, sei que meu nome vai ficar queimado nesse mercado. Não vou ter onde trabalhar”.

Esse medo da demissão pode ter sido o grande pivô, explica a psicóloga Fabiane Curvo, da PUC (Pontifícia Universidade Católica), do Rio de Janeiro. “O homem tem aquele papel de provedor. Ele se sente o responsável por aquela família. A possibilidade de perder esse status, de não dar conta, abala a autoestima. Então, a gente começa a fantasiar e a imaginar coisas catastróficas, que não são reais, que colocam a gente para baixo e nos fazem acreditar não sermos capazes de lidar com determinada situação”, explica ela.

No mesmo dia, outro pai de família, de 41 anos, matou o filho de 4 anos, e se suicidou em São Paulo, com uma suspeita parecida. Uma carta de despedida foi encontrada, na qual ele se queixava de desemprego e dívidas, que estavam afetando o relacionamento de dez anos com sua mulher, segundo informações do jornal Folha de S. Paulo.

Cada caso é muito particular e existem diversos fatores envolvidos, aponta a psicóloga. “Mas tudo está relacionado com o hábito de antecipar problemas que ainda não existem, sejam de ordem da insatisfação profissional ou de medos financeiros”, diz Fabiane. “Por isso é importante se abrir, conversar com outras pessoas, sejam especialistas, amigos, familiares. Analisar os dados reais da situação, outras visões, para conseguir fazer um balanço”, aconselha ela.

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