“Jogo do Desmaio” mata garoto de 13 anos: entenda risco da brincadeira perigosa

Um garoto de 13 anos morreu vítima de uma “brincadeira” grave praticada por muitas crianças e adolescentes. O jogo do desmaio é popular desde a década de 80 e já levou outros jovens à morte ao redor do mundo. As imagens desta matéria são retiradas de diferentes vídeos da brincadeira divulgados no YouTube, o que evidencia como o jogo é popular e cada vez mais estimulado entre a juventude.

Entenda o caso

Gustavo D.* estava na casa de seu pai, em São Vicente, litoral de São Paulo, quando foi encontrado por uma prima desmaiado em um dos quartos do imóvel. De acordo com informações fornecidas pelo tio do jovem ao site de notícias G1, ele estava conversando com seus amigos por um chat e suas imagens eram transmitidas ao vivo pela webcam.

Durante a conversa, ele deu início à brincadeira bastante popular entre adolescentes, cujo objetivo é ficar sem respirar até perder os sentidos e, segundos depois, retomar a consciência. Gustavo usou uma corda para se enforcar enquanto os outros adolescentes assistiam tudo. Os amigos que acompanhavam o menino enquanto ele “jogava”, perceberam que ele desmaiou por muito tempo e pediram, através de mensagens pelas redes sociais, que sua prima, que estava na mesma casa, fosse socorrê-lo.

Familiares encontraram o garoto desmaiado e conseguiram o reanimá-lo. Ele foi encaminhado para um hospital e, posteriormente, transferido para outro, mas não resistiu e faleceu.

No boletim de ocorrência registrado pela família, o tio disse acreditar que ele tenha sido motivado a realizar o jogo pelos seus amigos, como desafio após perder uma partida de um game.

Brincadeira do desmaio: o que é

A “brincadeira”, embora sofra algumas variações de prática, é conhecida em todo o mundo como “choking game”. No Brasil, ela é chamada de jogo do desmaio ou brincadeira da asfixia. Nos Estados Unidos, de acordo com informações do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), ao menos 82 adolescentes já morreram com a prática entre 1995 e 2007. Das vítimas, 87% tinham entre 11 e 16 anos.

O objetivo do “jogo”, geralmente feito em grupo, é que um dos participantes, ao ter a interrupção voluntária da respiração e consequentemente da oxigenação do cérebro, vivencie as sensações de um desmaio (euforia ou lentidão, vertigem). Feita geralmente por crianças e adolescentes, é comum que na brincadeira usem lenços, cintos ou cordas para o asfixiamento, ou também usando a própria mão para enforcar uns aos outros.

Busca por fortes emoções, falta de informações sobre os riscos envolvidos, curiosidade de experimentar o estado de consciência alterado e pressão dos amigos estão entre os motivos de os jovens adotarem a “brincadeira”. “Os adolescentes estão em uma fase desbravadora, acham que são invencíveis. Muitos podem até não saber das consequências, ainda mais se forem crianças, mas os jovens tendem a achar que são insuperáveis e nada de grave pode acontecer com eles”, comenta Dra. Maura Neves, otorrinolaringologista infantil da clínica MedPrimus, de São Paulo.

Riscos e consequências do jogo da asfixia

Parada cerebral

É claro que uma “brincadeira” que interrompe a oxigenação cerebral traz graves riscos. Ao diminuir os níveis de oxigênio e aumentar o de gás carbônico, o cérebro deixa de funcionar. “Quando uma pessoa tem uma queda nos níveis de oxigênio e não consegue recuperar, é como se ela desligasse o cérebro. E se na volta da oxigenação ele não ativar de novo, a pessoa morre”, explica a médica.

Parada cardíaca

A parada do sistema respiratório e do cerebral ainda pode levar a baixos de oxigênio no sangue, quadro que desencadeia as paradas cardíacas. “Se a pessoa já tem uma sensibilidade cardíaca, uma arritmia, mesmo que não saiba, essas variações de níveis de gás oxigênio e carbônico podem piorar o problema e também levar a morte”, alerta Dra. Maura.

Sequelas

Ainda que os níveis de oxigênio se estabilizem a tempo de não afetar completamente o sistema cerebral e nem o cardíaco, o indivíduo pode sofrer com algumas sequelas. “Ele pode voltar do desmaio com uma lesão cerebral. O grau é muito variável, depende do tempo que ficou sem oxigenação e da região que foi comprometida, mas pode haver lesão”, explica a otorrinolaringologista, que ainda compara o mecanismo com o que acontece em afogamentos e soterramentos.

Fraturas e traumatismo craniano

Os riscos da brincadeira do desmaio ainda envolvem lesões corporais já que, ao cair, além de poder fraturar ossos, o indivíduo ainda pode bater a cabeça e sofrer um traumatismo craniano.

Informação e prevenção

Aos pais, é importante, além de explicar sobre os riscos, estar atento ao comportamento dos filhos. Marcas no pescoço, dores de cabeça fortes e constantes, desorientação, presença injustificada e constante de lenços, cintos e cordas em ambientes de permanência do jovem devem chamar atenção.

“Primeiro é importante abordar os filhos e explicar os riscos da brincadeira. Depois, tentar entender os motivos pelos quais ele está se comportamento dessa maneira. Se está com problemas familiares, se é uma depressão ou ansiedade associada. Isso não é brincadeira e em alguns casos pode até ser encarado como tentativa de suicídio. Nessas situações, é importante até procurar um psicólogo ou um psiquiatra”, orienta a profissional.

A escola é outro caminho de informações e prevenção. Palestras e aulas sobre os riscos da “brincadeira” podem contribuir para que aluno entenda o perigo da prática não ceda à pressão dos colegas, caso seja esta a situação.

*A reportagem optou por omitir o sobrenome do adolescente para evitar exposição do menor de idade.

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