“Ontem me mataram”: carta perturbadora fala sobre amigas mortas ao viajarem “sós”

Colocações como “por que ela estava andando sozinha?” ou “estava pedindo” podem até parecer inofensivas, mas, reforçam uma ideia errada e muito perigosa: a de que mulheres devem constantemente estar acompanhadas de homens e que, aquelas que não fazem isso, estão se colocando propositalmente em risco. Exemplo é o que aconteceu com duas jovens argentinas na última semana. Depois da notícia da morte das duas circular por toda a América Latina, muitos internautas passaram a julgá-las por viajarem “sozinhas” – mesmo sabendo que elas estavam acompanhadas uma da outra.

Entenda o caso

Maria José Coni, de 21 anos, e Marina Menegazzo, de 22, decidiram viajar juntas por vários países da América Latina. Pouco antes de partirem para o Peru, as jovens foram assaltadas em um albergue no Equador, na cidade de Montañita. Sem dinheiro, elas recorreram a um amigo, que comentou ter um conhecido que morava sozinho e podia hospedá-las até que a situação fosse resolvida.

Mas, quando elas chegaram à casa, encontraram os dois homens bêbados. Uma delas foi levada para um dos quartos e, quando se recusou a manter relações com um deles, levou uma paulada na cabeça e morreu imediatamente. A segunda foi morta logo em seguida a facadas. De acordo com informações do La Nación, site de notícias argentino, os suspeitos foram presos e um deles confessou o crime.

Feminicídio e culpabilização da vítima

O caso virou manchete em toda a América e, embora as pessoas se surpreendessem com tamanha agressividade, algumas insistiam em dizer que as mulheres estavam viajando sozinhas e provocaram a situação. A paraguaia Guadalupe Acosta, revolta com o desfecho do caso, escreveu uma carta emocionante e muito pertinente para chamar atenção para o feminicídio, morte motivada pela desigualdade de gênero, debater o perigo de culpar as vítimas pelo crime e reforçar que as jovens não estavam sozinhas, já que uma era a companhia da outra.

A carta foi escrita como se por uma das jovens, já morta, e é um convite para uma importante reflexão. Em um dos trechos, a autora mostra com clareza a diferença com que a sociedade enxerga homens e mulheres. “E só morta entendi que para o mundo eu não sou igual um homem. Que morrer foi minha culpa, que sempre vai ser. Enquanto que se o título dissesse ‘foram mortos dois jovens viajantes’ as pessoas estariam oferecendo suas condolências e, com seu falso e hipócrita discurso de falsa moral, pediriam pena maior para os assassinos. Mas, por ser mulher, é minimizado. Torna-se menos grave porque, claro, eu procurei. Fazendo o que queria, encontrei o que merecia por não ser submissa, por não querer ficar em casa, por investir meu próprio dinheiro em meus sonhos. Por isso e por muito mais, me condenaram”, é parte dela.

Carta na íntegra

Em tradução livre:

“Ontem me mataram.

Neguei-me a deixar que me tocassem e com um pau arrebentaram meu crânio. Me deram uma facada e me deixaram morrer sangrando.

Como lixo, me colocaram em um saco de plástico preto, enrolada com fita adesiva, e fui jogada em uma praia, onde horas mais tarde me encontraram.

Mas, pior do que a morte, foi a humilhação que veio depois.

A partir do momento que viram meu corpo inerte, ninguém se perguntou onde estava o filho da p* que acabou com meus sonhos, minhas esperanças, minha vida.

Não, preferiram começar a me fazer perguntas inúteis. A mim, podem imaginar? Uma morta, que não pode falar, que não pode se defender.

Que roupa estava usando?

Por que estava sozinha?

Como uma mulher quer viajar sem companhia?

Você se enfiou em um bairro perigoso. Esperava o quê?

Questionaram meus pais, por me darem asas, por deixarem que eu fosse independente, como qualquer ser humano. Disseram a eles que com certeza estávamos drogadas e procuramos, que alguma coisa fizemos, que deviam ter nos vigiado.

E só morta entendi que para o mundo eu não sou igual um homem. Que morrer foi minha culpa, que sempre vai ser. Enquanto que se o título dissesse ‘foram mortos dois jovens viajantes’ as pessoas estariam oferecendo suas condolências e, com seu hipócrita discurso de falsa moral, pediriam pena maior para os assassinos.

Mas, por ser mulher, é minimizado. Torna-se menos grave porque, claro, eu procurei. Fazendo o que queria, encontrei o que merecia por não ser submissa, por não querer ficar em casa, por investir meu próprio dinheiro em meus sonhos. Por isso e por muito mais, me condenaram.

E sofri, porque já não estou aqui. Mas você está. E é mulher. E tem de aguentar que continuem esfregando em você o mesmo discurso de “fazer-se respeitar”, de que é culpa sua que gritem que querem pegar/lamber/chupar algum de seus genitais na rua por usar um short com 40 graus de calor, de que se viaja sozinha é uma “louca” e muito seguramente se aconteceu alguma coisa, se pisotearam seus direitos, você é que procurou.

Peço a você que por mim e por todas as mulheres que foram caladas, silenciadas, que tiveram sua vida e seus sonhos ferrados, levante a voz. Vamos brigar, eu ao seu lado, em espírito, e prometo que um dia seremos tantas que não haverá uma quantidade de sacos plásticos suficiente para nos calar.”

Campanha Viajo Sozinha

Depois da ampla divulgação do caso e da carta, uma campanha online foi lançada. Nela, mulheres postam fotos em viagens feitas sozinhas e acrescentam a hashtag “ViajoSola” (viajo sozinha, em espanhol) para manifestarem seu desejo de viajar livre e sem riscos, situação ainda impossível em muitos países.

 

Vimos em: BolsadeMulher

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