Você sabe como é ter câncer? Jussara diz como é “superviver” há 9 anos com doença

Receber um diagnóstico de câncer não é mais uma sentença de morte. O avanço da medicina está permitindo uma caminhada em direção a um cenário em que muitas das várias doenças, que chamamos de câncer, poderem ser tão bem tratadas a ponto de serem consideradas problemas crônicos, podendo ser levados junto com uma vida normal.

Jussara Del Moral é uma dessas mulheres que vivem com o câncer. Uma de suas frases preferidas para se referir à doença é: “Não somos amigos, mas temos uma boa convivência”. Aos 52 anos – e desde os 43 com câncer – ela tem uma agenda mais movimentada do que muita gente de 30.

Divide-se entre as postagens em seu canal no Youtube, o Supervivente, onde fala sobre sua experiência e conversa com companheiras no combate à doença, outros youtubers e especialistas, como o aclamado médico Drauzio Varella.

A Supervivente diz que “supervive” – em vez do incômodo “sobrevive” – e nos contou muito mais sobre o que é um câncer de verdade. Bem além dessa palavra que temos medo de pronunciar.

Primeiros anos: da descoberta do câncer à estagnação

Diagnóstico e tratamento

Foi em 2007 que Jussara descobriu o câncer de mama, ainda em uma fase inicial, portanto, com um bom prognóstico. Ela retirou uma parte da mama e depois fez quimioterapia e radioterapia. Os cabelos caíram, mas ela estava bem e seguia firme.

Metástase no pulmão

Depois que uma mulher descobre e trata o câncer, ela passará por exames periódicos para ter certeza que a doença não voltou. Durante um desses testes, já em 2009, Jussara descobriu a recidiva da doença. “Havia não uma, mas várias metástases no pulmão”.

Iniciou-se novamente o ciclo de operação, quimio e queda dos cabelos, mas, como diz a “supervivente”, ela “ficou bem de novo”.

Cirurgia na cabeça

Em 2013, Jussara sentiu uma “coisa alta” na cabeça. Os médicos disseram que era uma metástase do câncer de mama na calota craniana.

Quando um câncer gera uma metástase em outra parte do corpo, ele continua levando o nome de seu órgão original. Por exemplo: “Câncer de mama com metástase na calota craniana”, porque ele carrega as características celulares do tumor original e não do novo local.

A calota craniana, assim como os pulmões, são partes do corpo que frequentemente recebem metástases do câncer de mama.

Jussara passou por uma nova cirurgia, essa no osso da cabeça, e 20 sessões de radioterapia, que deixaram o topo de sua cabeça definitivamente careca. Para disfarçar, ela usa uma prótese capilar que prende a seus fios, dando a impressão de um cabelo bem cheio.

Foram-se os cabelos e vieram alguns quilos a mais, o abalo na autoestima para uma mulher vaidosa como ela, seria praticamente inevitável.

A prótese óssea que substitui a parte acometida do crânio de Jussara infeccionou e ela precisou fazer outra cirurgia, mas resiliente que é, ela seguiu adiante. “Agora minha cabeça está um pouquinho afundada, mas eu estou sempre com alguma coisa na cabeça, então esse não é um bicho de 7 cabeças”.

Um ano depois foram encontrados mais nódulos no crânio, tratados, desta vez, com quimioterapia oral, pois ela já não pode mais fazer radioterapia nessa parte da cabeça.

Terapia-alvo

Hoje, com 52 anos, Jussara continua fazendo seu tratamento, agora com terapia-alvo – um esquema medicamentoso relativamente novo que ataca só as células cancerígenas, mantendo as saudáveis intactas, e terapia hormonal, método também moderno que reduz a concentração dos hormônios femininos e bloqueia a ação deles sobre o tumor.

Desde sua última quimioterapia, o câncer de Jussara não regrediu, mas também não avançou. “Ele está estacionado e essa é a ideia para quem tem metástase”.

Dos efeitos colaterais, o que mais incomoda é o rash cutâneo, o aparecimento de vermelhidão e pequenas lesões na pele, que continuam mesmo depois de dois anos usando o mesmo remédio.

E a vida segue

O canal de Jussara no Youtube já tem mais de 800 inscritos, que acompanham os vídeos da “supervivente” e contam para ela que passaram a ver o câncer de uma maneira diferente depois de conhecê-la. “Já tô mais experiente, mas continuo com a mesma visão: se eu conseguir atingir uma pessoa, já está bom”, conta.

De três em três meses, ela faz exames para ver como está a doença – “doença não, câncer”, corrige-se ela, ressaltando a importância de encarar o câncer de frente mesmo quando se trata da escolha das palavras. A cada 90 dias, a tensão e o medo de descobrir algo em um desses testes volta. “Semana que vem minha vida pode mudar”, compartilha.

Além do canal e do tratamento, Jussara cuida da mãe idosa, vai diariamente à academia, dá palestras e depoimentos e participa da Rede Mais Vida, um grupo do Oncoguia em que mulheres que já convivem com o câncer de mama metastático há mais tempo aconselham mulheres que não têm muita informação e descobriram a doença mais recentemente.

Diante de tantos compromissos, vez ou outra o tratamento causa exaustão. “Tem dias em que você acorda com os ‘cornos virados’. Bate um cansaço de fazer tratamento, ir no hospital e tomar picada toda hora. Mas normalmente eu não fico muito baixo astral, porque se eu ficar, eu não vou sair do sofá”, finaliza.

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